Marcas do processo: quando o acabamento deixa deesconder e passa a revelar
- Gleice Gonçalves

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Na construção tradicional, o acabamento sempre teve como função esconder. Esconder
imperfeições, corrigir desvios e padronizar superfícies. Porém, uma mudança importante
vem acontecendo no design contemporâneo: o acabamento passa a revelar, e não
ocultar.

Materiais que mostram seu processo de formação e execução ganham protagonismo.
Pedras naturais com veios aparentes, madeiras com marcas do tempo, cerâmicas com
variações de queima e até superfícies com textura irregular passam a ser valorizadas
justamente por não serem perfeitas.
Esse movimento dialoga com o pensamento de John Ruskin, que defendia que a
arquitetura deveria carregar as marcas do trabalho humano. Para ele, a ausência total de
imperfeições indicava perda de identidade e afastamento da realidade do fazer.
Na prática, isso significa aceitar que cada material tem comportamento próprio. Uma
chapa de pedra nunca será idêntica a outra. Um lote de cerâmica pode apresentar
variações. E é exatamente isso que cria riqueza visual.
Ao incorporar essas características no projeto, o espaço ganha profundidade. Ele deixa de ser genérico e passa a ser único. Essa singularidade tem impacto direto na percepção de valor.
Na Be Galeria, trabalhamos com essa lógica de forma intencional. Materiais são escolhidos não apenas pela aparência final, mas pelo que comunicam ao longo do tempo. A ideia é
que o espaço envelheça bem, mantendo sua identidade mesmo com o uso.
Esse tipo de abordagem exige mais controle e repertório técnico. É preciso saber equilibrar variação e composição para que o resultado seja coerente e não caótico.
Quando bem aplicado, o acabamento deixa de ser uma camada final e passa a ser parte
ativa da narrativa do projeto.



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